Apresentação na Câmara encerra ano de atividades da Fatid
14/12/2007 - Os alunos da Fatid (Faculdade Aberta à Terceira Idade de Indaiatuba) receberam, no dia 5 deste mês, na Câmara de Vereadores, seus certificados de conclusão do ano letivo. Ao todo, foram 352 formandos, que um dia antes apresentaram seus trabalhos realizados ao longo do ano. A cerimônia de entrega de certificados contou com a presença de autoridades municipais, entre elas o prefeito José Onério (PDT), e do diretor da Fatec Indaiatuba Luis Antonio Daniel, da idealizadora e coordenadora da Fatid, Doraci da Silva Semente (a Dora) e de familiares dos alunos.

O diretor da Fatec, Luis Antonio Daniel, com aluna da Fatid e o prefeito José Onério, na cerimônia de entrega dos certificados
O diretor da Fatec Indaiatuba elogiou os trabalhos da Fatid, que funciona no mesmo prédio da Faculdade de Tecnologia desde que surgiu, há 8 anos, com cursos dirigidos a pessoas acima de 45 anos. Neste período, aproximadamente 3 mil pessoas se formaram.
O aposentado João Godói, de 82 anos, foi o orador da turma de formandos. Foi a primeira vez, em toda sua vida, que falou ao microfone para uma platéia cheia, coisa que, para ele, era inconcebível até conhecer a Fatid. Ao site da Fatec Indaiatuba, seo João, como é conhecido na turma, falou de sua experiência. “Eu nunca havia freqüentado uma sala de aula. A vida da gente era só trabalhar. Até os 15 anos eu trabalhei em uma fazenda. Depois fui para São Paulo, onde entrei em fábrica e não parei mais”, conta o aposentado.
Por falta de escola para os filhos, o pai, segundo ele, era quem fazia as vezes de “professor” na infância. “À noite, à luz de lamparina, ele chamava a gente e ensinava o abecedário e como escrever os nomes”, lembra. Na vida adulta, seo João conseguiu ser absorvido pelo setor industrial, numa época em que ser analfabeto era regra, e não exceção, no Brasil. Mesmo sem saber ler e escrever direito, deu sua parcela valiosa de contribuição para o setor de metalurgia, onde trabalhou em projetos do fogão a gás e da máquina de lavar roupas. No trabalho, falava pouco. “Eu tinha receio de falar em público, vergonha por ter pouca instrução”, conta ele. “Eu achava que era um problema sério, mas não encontrava um caminho”, revela.
Foram as filhas que lhe recomendaram, por experiência, a Fatid. Seo João decidiu romper a barreira e se matriculou no curso de Leitura. Conta que, aos poucos, está perdendo a timidez. Escolhido para ser orador da turma, sentiu medo. Até quis fugir na última hora, inventando problema de saúde, mas não teve como escapar: a coordenação fazia questão de sua presença. E ele foi, subiu na tribuna e soltou o verbo. Presentes na platéia, as filhas adoraram. Empolgado, seo João já decidiu: vai se matricular de novo no curso de Leitura, que a cada ano faz uma abordagem diferente. “Quero me aperfeiçoar ainda mais”, comemora.
A Fatid também foi um marco na vida da aposentada Dirce Vaz Rossani, de 68 anos. Ela ingressou na Faculdade em 2001, numa fase ruim de sua vida, em que problemas financeiros com uma chácara e uma sensação forte de solidão a atormentavam. Começou fazendo Espanhol, partiu para o Alongamento, seguiu para o Francês e de lá deslanchou para o Tai Chi Chuan, Informática, Oficina de Jornalismo Impresso, Inglês. O último curso freqüentado, este ano, foi o Quem Sou, que como o próprio nome sugere, é de autoconhecimento, e foi para ela o fechamento, com chave de ouro, de todo um processo que se sucedeu no seu íntimo. “O problema da chácara continua, mas a pessoa, Dirce, mudou totalmente na maneira de pensar e agir”, confessa ela. Dirce conta que, na Fatid, pôde perceber que os problemas são comuns na vida de todos e que é preciso ser superior a eles, buscando conhecimento e troca de experiências. Encontrou solidariedade, fraternidade, conhecimento e se encantou com a dedicação dos professores. “Na Fatid não temos só professores, mas psicólogos, pedagogos, pessoas que estudaram e estão aplicando seus conhecimentos aqui, que deixam seus consultórios para doar meio dia de trabalho aos alunos”, assinala ela, que em 2006, foi eleita Miss Terceira Idade de Indaiatuba.
Integração e conhecimento
Segundo Dora, a Fatid tem dois objetivos principais: promover a integração entre pessoas da terceira idade e estimular o conhecimento. A Faculdade oferece nove cursos atualmente: Alfabetização, Leitura, Informática, Yoga, Tai Chi Chuan, Alongamento Muscular, Quem Sou, Inglês e Espanhol. “Já chegamos a oferecer 13, mas tivemos que reduzir a oferta por falta de espaço”, explica Dora. Os professores são voluntários, os cursos são gratuitos, têm duração média de dois anos e as aulas são uma vez por semana, das 8h às 11h. A única cobrança é de uma taxa de contribuição na matrícula (valor médio de R$ 20), que é utilizada para algumas despesas da Fatid. A Fatec Indaiatuba cede os espaços e os equipamentos. A idéia da Fatid foi inspirada no pai de Dora, Henrique da Silva Semente, já falecido. Segundo ela, o pai foi uma figura exemplar durante toda sua vida, mas sofreu o preconceito e as dificuldades de quem não sabe ler e escrever. Foi refletindo sobre isso que Dora prometeu a si mesma que um dia iria fundar um centro de alfabetização e estudos para a terceira idade. “A Fatid surgiu 20 anos depois de idealizada”, conta a coordenadora, que dava aulas na Fatec Indaiatuba na época da fundação da Faculdade Aberta à Terceira Idade. “Levei cinco anos para convencer o Centro Paula Souza – entidade mantenedora da Fatec Indaiatuba – a ceder o espaço. E consegui”, lembra Dora.
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